Terça-feira, Março 18, 2003

Tropeços
Há, no mundo, histórias improváveis e que aconteceram de verdade.
Assim é a história de Sílvia e Marcio.
Eles se conheceram em um sábado quente, na pequena cidade em que viviam. Era uma festa onde ela não queria ir, e ele foi sem pensar se queria ou não.
Logo que Sílvia chegou havia certo tumulto, por razão de um desentendimento qualquer ocorrido ali. A multidão ia toda pra esquerda, toda pra direita e de repente, sem razão alguma, a multidão se dividiu em duas e abriu um grande vão no salão. Do vão, devagar, em um silêncio mudo que só ela escutava, veio o Márcio andando na direção de Sílvia.
O baile, não se sabe ao certo se funcionava, se estava ali, ou mesmo se existia. Na memória poética de Sílvia e Marcio aquele lugar, aquele dia, foi feito para que um vão se abrisse e eles tivessem um a certeza do outro.
O casal que nem era bonito, fazia-se de brilhos e sorrisos apaixonados, mas durou pouco. Eles ficaram juntos aquela noite e outras 100 talvez. Não mais do que isso.
É que na 99ª , mais ou menos, Marcio acordou de mau-humor. Começaram uma discussão boba, sobre uma festa de quinta-feira. Sílvia dizia que ele estava errado. Marcio alegava que ela não sabia o que falava. Sílvia foi enfática em afirmar que ele não sabia como tratar uma mulher e ele gritou que ela não sabia se comportar como uma mulher. Sílvia chorou e Marcio bateu a porta, rumo à rua.
"É chuva de verão" - falava a mãe dela. "Esses dois, nasceram um para o outro" dizia o pai dele.
E eles sabiam disso. O que não sabiam, apenas, era que o amor pode tropeçar em um degrau ínfimo se não olhar bem por onde pisa. Não sabiam que em um segundo, quando não tomamos cuidado, podemos ser atropelados e mortos. E assim é com o amor.
Sílvia e Márcio não se ligaram por uns dias. Ao que ela se cansou de chorar e o procurou. Falou, de forma submissa, que queria estar bem com ele. Se desculpou e o abraçou forte. Mas Márcio foi irredutível. Insistiu que queria pensar e deixou-a ali, sentada em um banco de praça, sentindo que todo amor do mundo poderia ferir-lhe até os ossos.
O tempo passou e Sílvia continuava ligando, pedindo, chorando. Até que um dia, cruzou com Ronaldo na padaria. Ronaldo trabalhava com ela, mas ela nunca o havia notado antes. Ele puxou assunto na fila, a acompanhou até em casa, e convidou-a para um cinema mais tarde. Sílvia, ainda com os olhos inchados, aceitou, sem vontade.
Foram ao cinema e de noite jantaram. No dia seguinte, seus ombros pareciam mais leves apenas por ter tido compania. Topou um outro cinema e o teatro e novos jantares e almoços. Acabou por desistir de Marcio, nos braços acolhedores de Ronaldo.
Mas foi aí que, como por um teste do destino, Marcio reapareceu. Ela sentiu um gelo no êstomago ao vê-lo, mas fingiu que estava bem. Contou-lhe de Ronaldo, das noites, dos dias, da segurança trazida por ele, ainda que sem gelo algum no êstomago. Márcio ia se desesperando conforme via que podia perder seu amor. Ela quem lhe fez pensar que todas as buscas tinha cessado, estava indo.
Ele insistiu. Como se copiasse as palavras que ela tanto lhe disse, ele pediu, implorou até, mas Sílvia não aceitou.
Chorou a noite toda, sentindo perdê-lo, mas sentia-se responsável por Ronaldo e devia a ele sua sobrevivência pós-Marcio.
Passaram-se dois anos e eles fizeram suas vidas separados. Marcio com 30 mulheres diferentes, e Sílvia com Ronaldo. Tentaram se falar, se encontrar mas, quando ela podia ele estava ocupado. Quando ele podia, ela tinha ido viajar.
Ambos sabiam que pertenciam um ao outro, mas viviam em tamanho comforto que sentiam-se como se tivessem se afundado em sofá largo e não fossem capaz de se levantar dali.
O sofá, foi ficando cada vez mais profundo e, no dia em que Marcio mandou flores para Sílvia, Ronaldo a pediu em casamento. Ela aceitou, mas durante o noivado mudou de idéia algumas vezes e marcou um encontro com Marcio, porém foi na tarde em que iam se ver que a mãe de Ronaldo faleceu.
Ela o acolheu e cuidou dele, que pediu para anteciparem o casamento pois queria sair de casa o mais rápido possível.
Sílvia concordou e, em novembro último, casaram-se. Ela não diz que não é feliz. Mas percebe-se que sente um gelo na barriga quando lembra-se de Marcio. Ainda ssim elogia Ronaldo, para convencer a si mesma da opção que fez: “Eu gosto dele, ele vai ser um excelente pai para os meus filhos” Porém, baixa os olhos toda vez que falam do passado e de porque optou por essa vida: “Não sei se eu estava preparada para tanta felicidade”, fala, talvez, tentando se consolar.
Marcio ainda acalenta esperanças e junta dinheiro para comprar a casa que sonharam mas sabe, agora, que é preciso estar atento quando atravessamos a rua.
Os tropeços nos fazem cair e acontecem em um segundo. Uma fração de tempo que se dá, um escorregão no jeito de falar e depois ninguém consegue entender, porque amores são perdidos para sempre, afundandos em sofás confortáveis e belos, diante da possibilidade de ser feliz ali, próxima, a um impulso do corpo….
Enfim, o impulso não se deu. Não, não até hoje…

Sexta-feira, Fevereiro 07, 2003

Ela se chamava Marina. Tinha cabelos longos e olhos brilhantes.
Se apaixonou por um rapaz chamado Alexandre. Achava engraçado dizer um "rapaz". Sua mãe que falava assim, e talvez por iso lhe soava coisa de velho. Mas seu romance com a Alexandre era assim mesmo, uma coisa meio as antigas, cheio de carinhos e surpresas.
Alexandre também era bonito. Muito mais bonito do que rapazes comuns, ele tinha um monte de cabelo liso, os olhos castanhos, uma pele morena e um sorriso claro e iluminado.
No começo Marina estranhou que ele tivesse interese por ela. Mas, depois que acreditou, pensou que ele nem era tão bonito assim. E foram passando tempo juntos. Não muito tempo, havia se passado desde o primeiro beijo, quando Marina, por alguma razão, se encantou profundamente com tudo o que vinha dele. encantava-se com o seu jeito de olhar, encantava-se com o sotaque interiorano que ele tinha, encantava-se com o silêncio que se estabelecia entre eles depois de todas as palavras terem sido ditas, encantava-se com a sorte de ter aquele homem ali, tão precioso ao seu lado. E foi bem aí, num desses momentos de encantamento que Marina pensou na possibilidade de viver sem Alexandre. Quando imaginou, tomou um susto: "Ai" disse para si mesma, sentindo uma pontada de temor dentro de si, "não quero", pensou em seguida, como criança que tem de ir ao médico. Abraçou-o forte e, sem soltá-lo, pediu que estivesse sempre por perto. Alexandre resmungou que sim, e ela achou pouco: "Fala direito Alê, fala que gosta mesmo de mim, poxa...". Ele falou.
Mas sem que ninguém notassse, ali pairou uma sombra. E Marina, que tinha pavor de ser deixada, começou a ser esquecida.
Ela não entendia porque, e tentava fingir que estava tudo bem. Porém sua insegurança era como que o suor, e saia por todos os seus poros, dia e noite. Alexandre foi se distanciando, se distanciando, como uma silhueta que vai ficando menos de acordo com a distância ele umiu. Não para todo sempre que isso seria extra-terreno, mas sumiu da sua vida. Não respondia e-mails, telefonemas, e Marna achava que ele só tinha se esquecido de que ela era boa. Pensava: "Ah mas se ele me ver com aquela lingerie", ou então: "Ah mas se ele souber que eu li a trilogia inteira do Senhor dos Anéis", e assim foi fazendo planos, achando motivos que o fariam mudar de idéia.
Porque queria Alexadre por perto de novo. O amava sim, enquanto uma parte de si o odiava.
"Será possível, que ele não veja?" Marina acreditava que algumas coisas, deveriam cair sobre algumas pessoas, como raios.
Ah como desejou que caísse sobre ele, um raio com toda a realidade, de que ela sabia. E quando ele abrisse o micro, de manhã, estivesse ali tudo o que ele não vê. Tudo que Marina sentia dentro dela...
Ela passava todo o tempo a procurar uma música, um texto, uma imagem. Qualquer coisa que acionasse o despertador interno daquele rapaz. E aí voltava a pensar que algo poderia cair no colo dele, logo pela manhã, e mudar tudo. Algo que fizesse com que ele voltasse a ser o que sempre foi. O que tem que ser, o que ela queria que fosse.
Porque não podia ser diferente, e aí que estava toda a questão: Marina sentia como se não tivesse dado o direito a Alexandre, de ser tão relapso com ela. Até poderia dar o direito de ele ser ocupado, problemático, estranho, covarde, indeciso, confuso, doente, o que quer que seja.
Mas não relapso, não. Isso não. E por isso ela não conseguia aceitar o fim. Porque não encontrava um trauma de infância, uma doença grave, uma religião que o impedisse de estar com ela. Nada, nada o impedia, a única razão aparente era ele não querer, e isso..."Ah isso não" pensava Marina.
Por muitos anos ela ainda acreditou que haveria de cair a tal bomba, que mudasse tudo, explodindo as dúvidas que tinha, essas mesmas, que a matavam…essas mínimas possibilidades de que ele tenha sim, a revelia, desobedecido o que deveria ser uma ordem. E então, tenha apenas sido relapso….nada, além diso…
Nenhuma doença, nenhuma ocupação, nenhum problema em casa, nenhum trauma de infância, nenhuma razão.
Simplesmente relapso, como ele não poderia ter sido…
Mas esse dia nunca veio. Ela esqueceu dele. Esqueceu, mas morreu um pouco, de dor. Perdeu um pouco de si, enquanto buscava mentiras revestidas em papel bonito. Perdeu muito tempo, evitando a verdade, porque a verdadade pode nos ser tão insuportável, que não deveria existir as vezes.

Quinta-feira, Janeiro 16, 2003

As forças
Cleide era casada há 8 anos. Sofria e se cansava da vida ao lado de Sérgio. Depois de muitas tentativas, algumas noites de solidão e ela se separou.
Sergio, a contragosto deixou a casa onde viveram por tantos anos, numa noite de sexta. E naquele dia, não doeu.
Ela se sentia cansada, estressada, e um pouco enjoada. Deitou-se e dormiu abraçada à filha, depois de explicar-lhe tudo conforme convinha.
Os dias se passaram mais amenos. Sem gritos, sem desgastes ou acusações. Ela sentia-se livre e independente. Passeou por parques, teatros e restaurantes exibindo a mão nua, sem grades e amarras. Quase um mês se passou até que Cleide sentisse a falta de seu ex-marido.
Ela estava entrando no banho, já despida, quando ligou o chuveiro, e notou que a água não esquentava. Passaram-se alguns minutos, e nada acontecia. “Queimou”, ela disse pra si mesma, já pegando a toalha.
"Tudo bem, basta trocar alguma coisa lá dentro. Tenho o material aqui." Ela pegou um banquinho de madeira, e subiu. Tinha algo para desrosquear, seria fácil.
Cleide tentou tirar aquela parte, para abrir o chuveiro. Virou com força para esquerda, se equilibrando sobre o velho banquinho de madeira. Estava duro, e quanto mais força ela fazia, só sentia arder a mão. Deisitiu um pouco. Sentou-se no banquinho. Procurou pela casa algum papel com intruções. Não achou. Droga. Então, não restava outra alternativa: o Sérgio. Ele fizera isso mais de uma vez, conhecia tudo de eletrônia, explicaria por telefone mesmo, em alguns minutos. Cleide discou, ainda de toalha:
- Alô
- Oi Sérgio, sou eu a Cleide, tudo bem?
- Tudo - Ele respondeu seco. Mas quem se importava?
- Sergió, aquele negócio do chuveiro, lembra? Que aconteceu aquele dia, quando a gente ia no casamento do Fausto?
- Não. - ele lembrava, ela tinha certeza.
- Ah Sergio, de não esquentar, só fica frio, pô.
- Ah sei. Que que tem?
- Então, aconteceu de novo.
- E?
- É que tá duro o lugar de desrosquear eu tô na duvida se tá certo..
- Ah é assim mesmo. Esse negócio de desrosquear é duro mesmo.
- …
- Mas põe força lá que vc consegue.

Cleide desligou. Voltou ao banheiro, posicionou o banquinho, e começou a chorar.
- Isso não é vida - ela dizia a si mesma, usando a toalha pra secar o rosto.
- Viver assim, sem ninguém, pra me ajudar nos momentos difíceis, porra. - E chorava mais.
- Quer saber? Eu vou consertar essa merda, nem que estoure a caixa d'água do bairro todo.
Subiu e usando de toda sua raiva, resmungando alto, e urrando de força, conseguiu girar a tampa.
Um tanto de foligem, caiu em seu rosto. Ela desceu, tentou se limpar pegou uma manual para trocar a mola, e subiu de novo. Quanto mais mexia, mais foligem era derramada sem piedade por todo o lugar.
E assim, com o corpo sujo, segurando o manual em uma mão, as peças na outra, aos prantos, Cleide trocou a força do chuveiro.
Ou a sua própria força, não se sabe ao certo.
Tomou um banho quente, limpou o banheiro e, ao invés de sair conforme planejara, adormeceu pensando que talvez, apenas talvez, a vida de solteira não fosse tão boa assim, e de fato, os dias não foram mais tão agradáveis, ainda que o banheiro funcionasse sozinho e tudo estivesse em ordem.
Dentro de si, desde então, uma prostração tomava conta de seu corpo, toda vez que acendia o interruptor de casa...

Sexta-feira, Janeiro 03, 2003

O rompimento
Eleonor defendia Carmo com unhas e dentes. As amigas a criticavam, diziam que ele era mandão, enrolador, até de mulherengo o chamavam. Não que ele não fosse, mas elas diziam como se ele chegasse as vias de fato, como se mantivesse mesmo uma outra relação, e isso deixava a noiva enfurecida. “Só porque espichava sempre o olho pra um rabo de saia? Ele olha porque não vê mal nenhum, só pra apreciar, isso é honestidade tá?” Afirmava Eleonor, categórica. “Ainda vamos nos casar, na igreja!” Emendava sempre. As amigas, já nem respondiam mais. Se comunicavam com gestos, balançavam a cabeça e no máximo soltavam um “tsc, tsc”, desoladas.
“Como a amiga podia cair nessa? Um trambiqueiro de primeira, nem bonito era com aquele monte de correntes rodeando o pescoço. Dizia que ia casar, mas já completava 10 anos de promessas sem que ele movesse uma palha”.
E Eleonor, ainda que não fosse lá essas coisas, era uma moça aprumada, sempre bem perfumada, com cabelos longos que dava gosto. Podia achar outro rapaz bom...
Mas, não queria saber. Estava sempre com o Carmo, braços dados, orgulhosa. Nem virava-se quando a chamavam, fingindo que não ouvia. Guardava recortes de vestidos brancos, contava sobre baile que teriam, a viagem que ele prometera...
Acreditava nisso, como acreditava na fidelidade de “meu bem”, como o chamava.
Até uma quarta-feira, quando o fato se deu.
Eleonor voltava do salão onde trabalhava, quando ouviu a voz de Carmo. Olhou em volta e viu o carro do noivo ali, parado na rua deserta. Aproximou-se sem fazer barulho e viu os cabelos loiros de Zilda, a vizinha da vila, no banco do passageiro. Ele tinha os braços ao redor do corpo dela e acariciava-lhe as costas.
Eleonor sentiu rápido o chão lhe fugir dos pés. Um gelo percorreu seu corpo como se levasse embora o que lá havia, e a ela faltou o ar e até mesmo as lágrimas.
Saiu correndo daquele lugar, entrou em casa sem que a vissem e não saiu mais, até que o noivo a procurou; flores em punho, camisa aberta, sorriso nos lábios.
Ela mandou que entrasse e sentasse. Guardou as flores, e sem muitos rodeios foi logo falando. Contou que vira a moça em seu carro, falou do cabelo, da rua, da dor que sentira. Ia falando e a dor ia se transformando em mágoa, coração apertado não pelo que Carmo tinha feito, mas por ele permanecer cheiroso, belo e sedutor ainda depois de tantas lágrimas que ela havia chorado.
Ao final, sem pedir nada, calou-se.
O rapaz tentou defender-se; dissera que a moça tinha sido por demais envolvente que a carne era fraca, mas que ainda naquele momento pensava em Eleonor. Em suas unhas compridas em seus cabelos sedosos em seu gosto bom. Ele dizia tudo se movimentando, chegando mais perto dela, passando-lhe a mão na coxa.
Até que, cerrando os dentes, Eleonor levantou-se, e pediu que ele saísse. Não queria ouvir mais uma palavra sequer, não importava mais. “As minhas amigas que estavam certa, você não vale nada” Disse-lhe enfim. Ele vendo-se sem respostas saiu. Antes de bater a porta, ela ainda fez um último pedido: “Diga a todos que eu terminei porque não lhe quero mais. Por favor, Carmo, não conte que me traiu”
Dias depois a vila toda comentava o feito. Eleonor acordara e resolveu vier, era o que diziam. Ela saia todos os dias, séria, não se via mais sorriso e sonhos em seu rosto, mas um dia ela iria se acostumar, continuavam. Carmo, porém, continuava insistindo. Mandava presentes e fazia serenatas na janela da moça, que não lhe dava ouvidos.
Pois foi também numa quarta-feira quando ninguém mais acreditava nesses dois que as coisas mudaram.
Ele apareceu lá, final de tarde, com flores e um papel. Como ela não abria a porta, resolveu gritar: “Tenho aqui um presente, mas se não queres me ver deixo na calçada e vou-me embora. Olhe mais tarde é o que te peço”.Saiu calado, e ela em seguida buscou o papelzinho, abrindo ansiosa. Quando leu, apertou-o contra o peito. Entendeu logo, que era um recibo da igreja. Estava bem claro lá, que Carmo, ainda rejeitado, havia reservado a igreja para que eles se casassem, no mês de maio.
Tudo mudou, de repente. Casar era coisa séria, significava arrependimento, e amor. Além do mais homens erram, mas depois aprendem, ela pensou.
Antes que ele virasse a esquina, então, ela gritou: “Meu bem!” Ele virou-se.
Eleonor sorriu e andou ao seu encontro. Falou palavras silenciosas no ouvido dele, e saíram de mãos dadas.
Casaram-se em maio.
Dizem, que estão felizes.

Domingo, Dezembro 22, 2002

Metade
Não foi amor a primeira vista. Nem a segunda, nem a terceira. Levou um tempo até que ela visse, nos olhos dele, uma luz diferente.
Ele estava cortando um tomate, enquanto os amigos preparavam o churrasco. E ela viu, saindo de dentro daquele olhar uma coisa estranha. Teve vontade de perguntar pra amiga se ela também notara, mas percebeu que era algo entre os dois e ficou calada. Tomou uma coca, entrou na piscina e deixou pra lá.
O tempo passou e eles se perderam. Mas ela sonhava com o moço noites seguidas. E se reencontraram; e viraram amigos. Falavam-se ao telefone por horas e depois que conheciam todas as histórias um do outro, ela começou a pedir-lhe que repetisse. "Conte aquela de novo", dizia. E ele fazia achando graça. A menina escolhia sempre uma história engraçada porque ele ria no final, e no fundo tudo o que ela queria era ouvir o riso dele, escapulido entre as palavras. Foram noites de telefonema e horas de plano.
Um dia se encontraram. Quase que por acaso. Havia passado mais de um ano desde a primeira troca de olhares.
A menina subiu as escadas e ele estava ali. Dentro de uma jaqueta azul. Ela sentiu vontade de chorar. Não de tristeza, mas de emoção, porque achou emocionante ver ali dentro da blusa azul um pedaço de si própria.
Sim, ele era uma parte dela.
E, depois, mais tarde, quando tudo deu errado, não adiantou ela fugir. Voôu o oceano todo e o peito continuava carregado de sentimento. Tudo o que estava fora estava fora. Dentro dela, um gelo no coração cada vez que se lembrava. Dentro dela, uma luz piscando sempre que pensava. E como um câncer esse sentimento se arraigou naquele corpo. Tomou força, e criou raízes.
Ele ainda existia, ainda vivia e não a pertencia. Isso rasgava a menina por dentro. As vezes ela esquecia. Mas era só pensar nele que se questionava: "Como pode, ele existir e não ser meu?
E até hoje, dizem, ela espera. Dizem que ela espera o tempo em que nesse história seja cravada uma vírgula e depois dela venha a frase "E uma dia ele acordou."Porque parece, e parece mesmo, que ele só adormeceu e se esqueceu, que do lado de lá também tem um pedaço dele...