Tropeços
Há, no mundo, histórias improváveis e que aconteceram de verdade.
Assim é a história de Sílvia e Marcio.
Eles se conheceram em um sábado quente, na pequena cidade em que viviam. Era uma festa onde ela não queria ir, e ele foi sem pensar se queria ou não.
Logo que Sílvia chegou havia certo tumulto, por razão de um desentendimento qualquer ocorrido ali. A multidão ia toda pra esquerda, toda pra direita e de repente, sem razão alguma, a multidão se dividiu em duas e abriu um grande vão no salão. Do vão, devagar, em um silêncio mudo que só ela escutava, veio o Márcio andando na direção de Sílvia.
O baile, não se sabe ao certo se funcionava, se estava ali, ou mesmo se existia. Na memória poética de Sílvia e Marcio aquele lugar, aquele dia, foi feito para que um vão se abrisse e eles tivessem um a certeza do outro.
O casal que nem era bonito, fazia-se de brilhos e sorrisos apaixonados, mas durou pouco. Eles ficaram juntos aquela noite e outras 100 talvez. Não mais do que isso.
É que na 99ª , mais ou menos, Marcio acordou de mau-humor. Começaram uma discussão boba, sobre uma festa de quinta-feira. Sílvia dizia que ele estava errado. Marcio alegava que ela não sabia o que falava. Sílvia foi enfática em afirmar que ele não sabia como tratar uma mulher e ele gritou que ela não sabia se comportar como uma mulher. Sílvia chorou e Marcio bateu a porta, rumo à rua.
"É chuva de verão" - falava a mãe dela. "Esses dois, nasceram um para o outro" dizia o pai dele.
E eles sabiam disso. O que não sabiam, apenas, era que o amor pode tropeçar em um degrau ínfimo se não olhar bem por onde pisa. Não sabiam que em um segundo, quando não tomamos cuidado, podemos ser atropelados e mortos. E assim é com o amor.
Sílvia e Márcio não se ligaram por uns dias. Ao que ela se cansou de chorar e o procurou. Falou, de forma submissa, que queria estar bem com ele. Se desculpou e o abraçou forte. Mas Márcio foi irredutível. Insistiu que queria pensar e deixou-a ali, sentada em um banco de praça, sentindo que todo amor do mundo poderia ferir-lhe até os ossos.
O tempo passou e Sílvia continuava ligando, pedindo, chorando. Até que um dia, cruzou com Ronaldo na padaria. Ronaldo trabalhava com ela, mas ela nunca o havia notado antes. Ele puxou assunto na fila, a acompanhou até em casa, e convidou-a para um cinema mais tarde. Sílvia, ainda com os olhos inchados, aceitou, sem vontade.
Foram ao cinema e de noite jantaram. No dia seguinte, seus ombros pareciam mais leves apenas por ter tido compania. Topou um outro cinema e o teatro e novos jantares e almoços. Acabou por desistir de Marcio, nos braços acolhedores de Ronaldo.
Mas foi aí que, como por um teste do destino, Marcio reapareceu. Ela sentiu um gelo no êstomago ao vê-lo, mas fingiu que estava bem. Contou-lhe de Ronaldo, das noites, dos dias, da segurança trazida por ele, ainda que sem gelo algum no êstomago. Márcio ia se desesperando conforme via que podia perder seu amor. Ela quem lhe fez pensar que todas as buscas tinha cessado, estava indo.
Ele insistiu. Como se copiasse as palavras que ela tanto lhe disse, ele pediu, implorou até, mas Sílvia não aceitou.
Chorou a noite toda, sentindo perdê-lo, mas sentia-se responsável por Ronaldo e devia a ele sua sobrevivência pós-Marcio.
Passaram-se dois anos e eles fizeram suas vidas separados. Marcio com 30 mulheres diferentes, e Sílvia com Ronaldo. Tentaram se falar, se encontrar mas, quando ela podia ele estava ocupado. Quando ele podia, ela tinha ido viajar.
Ambos sabiam que pertenciam um ao outro, mas viviam em tamanho comforto que sentiam-se como se tivessem se afundado em sofá largo e não fossem capaz de se levantar dali.
O sofá, foi ficando cada vez mais profundo e, no dia em que Marcio mandou flores para Sílvia, Ronaldo a pediu em casamento. Ela aceitou, mas durante o noivado mudou de idéia algumas vezes e marcou um encontro com Marcio, porém foi na tarde em que iam se ver que a mãe de Ronaldo faleceu.
Ela o acolheu e cuidou dele, que pediu para anteciparem o casamento pois queria sair de casa o mais rápido possível.
Sílvia concordou e, em novembro último, casaram-se. Ela não diz que não é feliz. Mas percebe-se que sente um gelo na barriga quando lembra-se de Marcio. Ainda ssim elogia Ronaldo, para convencer a si mesma da opção que fez: “Eu gosto dele, ele vai ser um excelente pai para os meus filhos” Porém, baixa os olhos toda vez que falam do passado e de porque optou por essa vida: “Não sei se eu estava preparada para tanta felicidade”, fala, talvez, tentando se consolar.
Marcio ainda acalenta esperanças e junta dinheiro para comprar a casa que sonharam mas sabe, agora, que é preciso estar atento quando atravessamos a rua.
Os tropeços nos fazem cair e acontecem em um segundo. Uma fração de tempo que se dá, um escorregão no jeito de falar e depois ninguém consegue entender, porque amores são perdidos para sempre, afundandos em sofás confortáveis e belos, diante da possibilidade de ser feliz ali, próxima, a um impulso do corpo….
Enfim, o impulso não se deu. Não, não até hoje…
Há, no mundo, histórias improváveis e que aconteceram de verdade.
Assim é a história de Sílvia e Marcio.
Eles se conheceram em um sábado quente, na pequena cidade em que viviam. Era uma festa onde ela não queria ir, e ele foi sem pensar se queria ou não.
Logo que Sílvia chegou havia certo tumulto, por razão de um desentendimento qualquer ocorrido ali. A multidão ia toda pra esquerda, toda pra direita e de repente, sem razão alguma, a multidão se dividiu em duas e abriu um grande vão no salão. Do vão, devagar, em um silêncio mudo que só ela escutava, veio o Márcio andando na direção de Sílvia.
O baile, não se sabe ao certo se funcionava, se estava ali, ou mesmo se existia. Na memória poética de Sílvia e Marcio aquele lugar, aquele dia, foi feito para que um vão se abrisse e eles tivessem um a certeza do outro.
O casal que nem era bonito, fazia-se de brilhos e sorrisos apaixonados, mas durou pouco. Eles ficaram juntos aquela noite e outras 100 talvez. Não mais do que isso.
É que na 99ª , mais ou menos, Marcio acordou de mau-humor. Começaram uma discussão boba, sobre uma festa de quinta-feira. Sílvia dizia que ele estava errado. Marcio alegava que ela não sabia o que falava. Sílvia foi enfática em afirmar que ele não sabia como tratar uma mulher e ele gritou que ela não sabia se comportar como uma mulher. Sílvia chorou e Marcio bateu a porta, rumo à rua.
"É chuva de verão" - falava a mãe dela. "Esses dois, nasceram um para o outro" dizia o pai dele.
E eles sabiam disso. O que não sabiam, apenas, era que o amor pode tropeçar em um degrau ínfimo se não olhar bem por onde pisa. Não sabiam que em um segundo, quando não tomamos cuidado, podemos ser atropelados e mortos. E assim é com o amor.
Sílvia e Márcio não se ligaram por uns dias. Ao que ela se cansou de chorar e o procurou. Falou, de forma submissa, que queria estar bem com ele. Se desculpou e o abraçou forte. Mas Márcio foi irredutível. Insistiu que queria pensar e deixou-a ali, sentada em um banco de praça, sentindo que todo amor do mundo poderia ferir-lhe até os ossos.
O tempo passou e Sílvia continuava ligando, pedindo, chorando. Até que um dia, cruzou com Ronaldo na padaria. Ronaldo trabalhava com ela, mas ela nunca o havia notado antes. Ele puxou assunto na fila, a acompanhou até em casa, e convidou-a para um cinema mais tarde. Sílvia, ainda com os olhos inchados, aceitou, sem vontade.
Foram ao cinema e de noite jantaram. No dia seguinte, seus ombros pareciam mais leves apenas por ter tido compania. Topou um outro cinema e o teatro e novos jantares e almoços. Acabou por desistir de Marcio, nos braços acolhedores de Ronaldo.
Mas foi aí que, como por um teste do destino, Marcio reapareceu. Ela sentiu um gelo no êstomago ao vê-lo, mas fingiu que estava bem. Contou-lhe de Ronaldo, das noites, dos dias, da segurança trazida por ele, ainda que sem gelo algum no êstomago. Márcio ia se desesperando conforme via que podia perder seu amor. Ela quem lhe fez pensar que todas as buscas tinha cessado, estava indo.
Ele insistiu. Como se copiasse as palavras que ela tanto lhe disse, ele pediu, implorou até, mas Sílvia não aceitou.
Chorou a noite toda, sentindo perdê-lo, mas sentia-se responsável por Ronaldo e devia a ele sua sobrevivência pós-Marcio.
Passaram-se dois anos e eles fizeram suas vidas separados. Marcio com 30 mulheres diferentes, e Sílvia com Ronaldo. Tentaram se falar, se encontrar mas, quando ela podia ele estava ocupado. Quando ele podia, ela tinha ido viajar.
Ambos sabiam que pertenciam um ao outro, mas viviam em tamanho comforto que sentiam-se como se tivessem se afundado em sofá largo e não fossem capaz de se levantar dali.
O sofá, foi ficando cada vez mais profundo e, no dia em que Marcio mandou flores para Sílvia, Ronaldo a pediu em casamento. Ela aceitou, mas durante o noivado mudou de idéia algumas vezes e marcou um encontro com Marcio, porém foi na tarde em que iam se ver que a mãe de Ronaldo faleceu.
Ela o acolheu e cuidou dele, que pediu para anteciparem o casamento pois queria sair de casa o mais rápido possível.
Sílvia concordou e, em novembro último, casaram-se. Ela não diz que não é feliz. Mas percebe-se que sente um gelo na barriga quando lembra-se de Marcio. Ainda ssim elogia Ronaldo, para convencer a si mesma da opção que fez: “Eu gosto dele, ele vai ser um excelente pai para os meus filhos” Porém, baixa os olhos toda vez que falam do passado e de porque optou por essa vida: “Não sei se eu estava preparada para tanta felicidade”, fala, talvez, tentando se consolar.
Marcio ainda acalenta esperanças e junta dinheiro para comprar a casa que sonharam mas sabe, agora, que é preciso estar atento quando atravessamos a rua.
Os tropeços nos fazem cair e acontecem em um segundo. Uma fração de tempo que se dá, um escorregão no jeito de falar e depois ninguém consegue entender, porque amores são perdidos para sempre, afundandos em sofás confortáveis e belos, diante da possibilidade de ser feliz ali, próxima, a um impulso do corpo….
Enfim, o impulso não se deu. Não, não até hoje…
